A Terapia como Processo Criativo (que se faz junto!)

Hoje terminei, pela primeira vez, um caderno de desenhos. Daqueles no estilo sketchbook, em que a gente se permite fazer rascunhos de forma mais livre. Comprei esse caderno em outubro de 2025 e ele acabou justamente em outubro de 2026. Folhear suas páginas é como assistir à passagem do tempo e dos momentos que vivi.
Quando comecei, estava no oitavo período da faculdade, com muitas preocupações sobre estágio e tcc. Agora sou, efetivamente, psicóloga (que incrível poder escrever isso!). Foi pensando nesse percurso que a psicologia me alcançou de novo: percebi o quanto a clínica também é um ofício artesanal e o quanto se parece com o processo criativo.
Na primeira página, eu pensava demais no que poderia fazer. É algo muito parecido com o que se pode sentir em uma primeira sessão. Eram tantas possibilidades que eu não sabia por onde começar, e me preocupava tanto em criar algo bonito que, às vezes, isso me travava. Foi assim por um tempo. Aos poucos, fui me familiarizando com o processo e uma certa espontaneidade chegou. Eu me sentava e me surpreendia com o que saía de mim. Nem sempre fazia sentido, mas trazia uma perspectiva sobre algo que me habitava e que, muitas vezes, eu nem sabia. Alguns desenhos me angustiavam. Outros eram um lugar seguro, aonde eu podia ir quando precisasse. E outros, para ser honesta, nem foram tão significativos assim.
Com o tempo, percebo que o caderno foi um lugar que me acompanhou e que fez retratos internos dos momentos que fui vivendo. Se a gente parar para pensar, a terapia também é assim. É um lugar que se constrói no tempo de cada pessoa e que acompanha. É confortável e desconfortável ao mesmo tempo, com espaço tanto para a repetição quanto para o inusitado.
Entre as muitas diferenças, porém, há uma fundamental: na terapia, esse acompanhar não se faz sozinho. Ele é, de fato, acompanhado, por outra pessoa, e isso acrescenta ainda mais artesania ao processo. A relação terapêutica é um dos pontos mais importantes da clínica porque possibilita o encontro com alguém que se interessa e se mobiliza.
Cristina Rauter escreve que “... se a clínica aspira produzir mutações no campo da subjetividade, deve aproximar-se da arte, talvez deva mesmo tornar-se arte” (Rauter, 1997, p. 109). Eu me pergunto de que formas isso já acontece na clínica e quais outras aproximações ainda são possíveis.
Pensando no futuro, é um privilégio imaginar que poderei acompanhar algumas histórias. E que também sou acompanhada, por alguém, pela arte e, muitas vezes, pelos dois.